Quando nasci,minha mãe estava sozinha, sem meu pai que viajara à procura de emprego e nunca mais voltou.
Meus avós a acolheram de volta e depois que nasci, ela se matava de trabalhar.Lavava roupa e passava, cozinhava, fazia salgados, tudo para nos sustentar.
Eu pouco via minha mãe, às vezes à noite ou aos domingos não me lembro bem.
Eram minha avó e minhas tias que cuidavam de mim.
Sei que me levavam aonde fossem, eu fui muito amada: vivi no meio de uma família grande, tinha muitos tios e primos.
Foi por isso que não senti falta de pai, além do que Mãe valeu pelos dois.
Ela era uma pessoa amarga, mostrava no rosto todo sofrimento que passava, dificilmente sorria.
Tivemos muitas discussões porque eu achava que minha avó é que poderia decidir por mim ou mesmo minhas tias.
Quando terminei a quarta série, ela foi trabalhar na casa de uma família rica e me levou junto na esperança que me colocassem num colégio, percebeu logo que fora um engano e voltamos para casa.
Ela conseguiu emprego no único colégio da cidade praticamente em troca dos meus estudos.
Assim que conclui a oitava série, ela já tinha decidido que eu seria professora. Fez um acordo com meu tio e ficamos na capital por três anos até eu me formar.Mãe ocupou o lugar dele como salgadeira num bar de um conterraneo e meu primo ficou conosco trabalhando e estudando.A princípio foi dificil para mim deixar para trás minha avó,tias e o primeiro namorado,que aliás ela detestava.
Mas tudo passa nessa vida,tantos sacríficios ela fez,enfrentou problemas de saúde sem se queixar,sem faltar um dia ao trabalho.
Mãe era a fortaleza em pessoa;nunca a vi chorar ,nem mesmo a morte de minha avó, isso me impressionava muito.
Só vi mãe se dobrar à dor muitos anos depois quando perdemos minha tia Sevignée e três anos mais tarde minha prima. Acho que o tempo foi lhe derretendo o coração.
Ela fez tudo por mim e por meus filhos:
Enquanto eu trabalhava não precisava me preocupar com nada , pois ela assumia minha casa.
Estava aqui me lembrando que erámos pobres, mas houve festa em meu casamento.Mãe , vó e minhas tias fizeram tudo com muito carinho. Não tinha o bolo dos noivos, mas tudo de bom que se usa em festas de cidades do interior estava na mesa.
Tenho o álbum com as fotos do casamento na igreja e em casa ,ela não chorou, porém todos da família estavam presentes, o tempo de suas lágrimas ainda não chegara.
Eu admirava sua retidão de carater e sua opção de fazer de mim alguém com um diploma.
Hoje eu entendo: eles eram onze irmãos e só uma pode estudar devido à situação financeira porém esta foi o arrimo da família, quem sempre nos socorreu nas dificuldades.
Agora, de onze restam quatro:um irmão sem juízo e as três melhores mulheres da minha vida que eu amo de paixão.
As três estão com a saúde abalada pelo tempo e pelo sofrimento.
Ontem mãe me deu um susto,ela não acordava.Ela tem 91 anos,mas é tolice pensar que estamos preparados para o pior. Só acordou no dia seguinte, normal como sempre,só está falando pouco.
Minha mãe sofre muito,está numa cama há mais ou menos 05 anos.Foi aos poucos parando de andar.Usou bengala,andador e após uma queda ficou com muito medo e não pude evitar a cadeira de rodas.
Agora está acamada e começando a ter escaras, estas feridas causam muita dor.Tentamos diminuir com medicamentos que dão um pouco de alívio.
Olho para ela e sinto vergonha de não suportar uma dor de cabeça. Mãe está sempre de carinha boa,ainda agora estou ouvindo-a cantar junto com o coral Missa de N. Sra Aparecida.
Minha tia colocou antena parabólica para mãe acompanhar missas,terços,etc.Elas são pessoas de fé.
Mãe já passou e superou um câncer de mama aos setenta e cinco anos. Ela mesma descobriu num auto-exame, o que nos deixou surpresos.
Hoje em dia com a idade avançada, noventa e dois anos, ela esquece onde está e de nós, às vezes me chama de outro nome ou mesmo de Mãe.Quer ir para sua casa, imagina que está fazendo coisas do passado: catando lenha, lavando roupa, etc.
Fico triste quando ela não me reconhece, mas aprendo todos os dias com ela. A mulher forte e até mesmo dura ficou lá no ontem.
Olho e vejo essa pessoinha frágil, totalmente dependente de outros e me emociono. Ainda tenho muito o que aprender após seis décadas de vida.
Rosália 03/01/2008